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"Bater Punho"

Miguel Gonçalves | Miguel Gonçalves | | RTP.pt

Quando a intervenção do criativo minhoto, Miguel Gonçalves, no Prós e Contras, se tornou viral no YouTube e Facebook, alguma da "geração à rasca" viu-se abalada no ego. Afinal, o facto de ser mais qualificada que anterior não significava ser iluminada. Mais que currículos, era preciso correr as empresas com ideias. 

"Bater punho" disse e tornou-se o mote que, da maneira exposta, no português minhoto falado, incendiou pelo menos a plateia de gargalhadas. Miguel ganhou o admiração de Fátima Campos Ferreira e espectadores, quer pela espontaneidade em que a tratava por "tu", corando o trato da emperiquitada formalidade portuguesa, quer pelo seu optimismo de guru americano da auto-ajuda.

É certo que Miguel tem razão, estamos no advento da economia essencialmente cerebral e criativa, onde o trabalho de músculo rareia, substituído pela força das máquinas. Não é por acaso que, à parte dos criativos da engenharia financeira e da imaginação que abunda nos mercados de capitais, as indústrias ligadas às tecnologias, marketing e design são as que pagam melhores ordenados e que oferecem melhor qualidade de trabalho e vida. Podem até ser as mais susceptíveis de criar novas santidades devidamente choradas pelas horas da morte. (Banqueiros e especuladores ricos, não lhes dê a remissão dos pecados pela filantropia, raramente são prendados com flores e dedicatória.)

Tudo bem, Miguel. Mas a receita aparentemente não chega para parte dessa geração que se aguenta em profissões clássicas, muitas delas nos serviços fundamentais de saúde e educação, em que a saudável loucura esbarra na rigidez das instituições e na dignidade das pessoas. Depois, nem toda a gente tem mentalidade de predador para disputar a aplicabilidade desta ou daquela ideia no mercado. Nem toda a gente nasceu mercador ou idiota. Muito menos apetite terá de se tornar quando o risco pela fortuna, carece da rede de segurança de uma sociedade civilizada, justa e solidária naltura da desgraça. E essa segurança dá liberdade a todo o processo criativo e é tudo o que Portugal não tem tido nos últimos anos.

É neste contexto que a 15 de Outubro, como foi a 12 de Março, os mesmos motivos operam o milagre de aproximar uma esquerda e uma direita de "indignados". Além de fazer pela sobrevivência do modelo de democracia em que o voto vale realmente pelo valor que tem, há necessidade de mostrar repúdio à incúria, ao branqueamento do enriquecimento na roleta russa para onde têm sido atiradas todas as nossas expectativas. Quem for "bater punho" paras as ruas, vai porque está farto deste "comodismo sem coragem nem prazer", vai porque a culpa morre solteira, vai porque não há verdadeiro Estado Social nem Economia de Mercado.

Vai "bater punho" para a rua porque não compreende o sistema onde o avanço tecnológico que democratizou o acesso à informação, aumentou a produção e a mobilidade, tarda em retirar da suspensão medrosa, o potencial de uma geração inteira. Vai "bater punho"para a rua porque quer arriscar viver neste país.

Última vez modificada em quinta, 13 outubro 2011 10:44
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Vítor Pimenta

Nascido a 7 de Fevereiro de 1983, em Cabeceiras de Basto. Mestre em Medicina pela Universidade do Minho desde Agosto de 2010 e actualmente Médico interno do Ano Comum nos Hospitais da Universidade de Coimbra. 

 


Fez parte do Conselho de Escola da Escola Superior de Enfermagem de Calouste Gulbenkian (2003-2004). Coordenador dos departamentos Científico-Cultural e Saúde Reprodutiva e SIDA do Núcleo de Estudantes de Medicina da Universidade do Minho (2007). Membro da Assembleia de Freguesia de Arco de Baúlhe (2001-2009). Autor do Blog "O Mal Maior", desde Outubro de 2005 e co-autor do Blog "Avenida Central", de setembro de 2007 a dezembro de 2009. Cronista (2010- 2011), colaborador (2009- ) e director-adjunto (2011- ) do mensário regional Jornal O Basto.

Website: malmaior.blogspot.com/
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