Instantes

de Idlib

Uma história de:

Rui Barros

Na incerteza de um novo bombardeamento, Idlib é só mais uma cidade síria que vive entre o medo de um futuro pior e a esperança que só a vontade de agir lhe sabe dar. Devastada por uma guerra civil que não tem fim à vista, num país onde nem sequer a mudança é certa, conserta-se hoje uma cidade desconcertada.

Quantos instantes de Idlib
estarão ainda por capturar
até desaparecer?

Diz-se que todas as histórias começam pela busca de um herói. E como em todas as histórias difíceis de contar, ainda hoje não estou certo de o ter encontrado.

Não sei exactamente quando decidi que tinha de contar esta história. Sei que a crise dos refugiados estava no pináculo do frenesim mediático e eu era um cidadão a quem os meios de comunicação não conseguiam dar respostas. É certo que sabia que havia um conflito. Mas quem lutava, e porquê? Porque fugiam aquelas pessoas?

E como seria a vida para além dos enquadramentos de miséria da moldura da televisão?

Fui à procura de respostas. E foi assim que acabei com uma caixa de e-mail cheia de fotografias publicadas na rede social Instagram em território sírio.

Durante um mês, olhei Damasco pelos olhos e lentes de gente que não conhecia. E vi sorrisos desconhecidos, mãos ao volante de carros de luxo, noites de folia, festejos, boates, botas, casacos e adereços novos. Jovens bem parecidos que contavam aos amigos a rebolia das suas vidas sob a forma de instantâneos digitais.

Enquadramentos felizes num país que se dizia triste.

Sem entender uma única linha de árabe, e sem conhecer nenhum daqueles jovens que todos os dias chegavam ao meu e-mail, só estava certo de uma coisa: aos olhos do Instagram, aquele não era um país em guerra.

Tentei chegar à conversa com todos eles.
Não sei se foi a língua inglesa, as palavras news reporter ou o facto de um estranho, em plena península ibérica, irromper assim, sem rodeios, pela sua redoma de felicidade, para lhes perguntar sobre uma guerra que não era deles. Poucos foram os que aceitaram falar. Os que concordaram, atrás dos ecrã e debaixo do anonimato, diziam, entre nuances linguísticas, sempre o mesmo:

“There is no revolution. There are only terrorists”.
Não há nenhuma revolução. Só há terroristas.

Suspirei de alívio.

Tinha encontrado os maus, os errados, os vilões da minha história. Preto no branco, a razão de ser vivia debaixo do manto rebelde, que afinal era o mesmo do terrorismo e do extremismo islâmico. Conflito moral resolvido, razão de ser encontrada, kaputt, c’est fini, assunto arrumado.

Como é fácil enganar espíritos pouco desassossegados.

E depois disso, Idlib

Mas as boas histórias também têm disto: nunca vão embora por completo. E às vezes vêm ter connosco, mesmo quando já não estamos à procura.

Conheci Idlib como conheci Damasco: à distância e através das redes sociais. Mas desta vez precisei de um guia: um grupo de jovens que a foi mostrando, na plenitude da sua vontade de mudar os desígnios traçados.

Tarek Sarhan, 22 anos, é estudante de Relações Internacionais na Universidade do Minho. Da Síria trouxe um inglês perfeito e a capacidade de me explicar a opressão do regime sírio. Pedi-lhe que tomássemos café, pedido que ele aceitou.

A conversa durou quase duas horas. Falou-me da primavera árabe e dos ventos de mudança que se converteram em rajadas de metralhadora sobre um povo que pedia por liberdade. Mostrou-me o vídeo de uma manifestação na sua cidade natal. Eu estava habituado à violência das imagens - que jornalista não está, hoje em dia? - mas aquilo era diferente.

Aquilo não eram as selfies nem os refrescos de Damasco. Era o som de balas, disparadas para matar, sobre uma população que pedia o direito de se manifestar. Direito negado desde 1963, quando o país passou a estar debaixo de um “estado de emergência”. Emergência da família Assad em controlar um povo que se queria livre.

“A primeira vez que isto aconteceu foi em 1982, na cidade de Hama”, contou-me. Nessa altura, o exército sírio cercou, ou melhor, dizimou uma cidade que clamava por liberdade. “Eles queriam ensinar-nos uma lição. E conseguiram, por algum tempo. Mas não consegues parar assim o desejo de ser livre”.

Hoje a vontade de ser livre divide o país a meio. Quer do lado daqueles que se opõem a um regime opressivo que destrói cidades a seu bel-prazer, quer daqueles que temem uma radicalização extrema de uma oposição que, de armas em punho, exige a deposição do que consideram ser um líder nato. A verdade é assim: suficientemente complexa para ser apenas a de cada um.

Perguntei-lhe pela família. Estão todos a salvo, fora da Síria. E já prestes a despedir-me, mostrou-me Idlib, a sua cidade, como hoje está, através do Facebook.

Idlib não é Damasco, como Braga não é Lisboa, mas aquela nem era a Damasco dos jovens instagramers nem a Síria das imagens que chegavam através da televisão. Era a cidade de um grupo de jovens de coletes florescentes que conduzia o trânsito numa cidade destruída.

“Quem são eles?”, perguntei.

“São um grupo de jovens que tenta cuidar das pessoas que ficaram em Idlib. Dão pelo nome de União de Jovens de Idlib. Aqui estão a percorrer a cidade e a gritar, literalmente, "desagrupar, desagrupar". Quando avistam caças-bombardeiros, fazem isto. Os aviões tendem a bombardear quando vêm pessoas", responde-me.

“Será que posso falar com algum deles?”

“Vou tentar”.

Que é como quem diz: nestas circunstâncias, nunca se sabe.

Ibrahim, o perigoso extremista que ousou contar uma história

As circunstâncias ditaram que teria de esperar bastante até finalmente poder falar com Ibrahim Almooalem.
O andamento da minha espera foi pontuado pelos bombardeamentos dos caças russos na área que me fizeram acreditar que não chegaria sequer a falar com ele.

E quando finalmente consegui, abatia-se sobre o Norte de Portugal uma tempestade que dificultava a qualidade da ligação. Do outro lado, os ruídos de um café na Turquia, onde Ibrahim interrompeu um momento com a família para falar comigo.

Estivemos à conversa por quase 3 horas, nas quais contei com a ajuda de Tarek para traduzir muitas das coisas que eu não sabia perguntar em árabe e que Ibrahim não sabia dizer em inglês.
As respostas, demoradas e despersonalizadas pela tradução instantânea, não deixavam de trazer em si parte de quem estou certo Ibrahim ainda é: um jovem de 28 anos que, como o seu país, viu o curso normal das coisas interrompido por uma guerra.

Começamos, como deve ser, pelo início: pela primavera árabe e as manifestações na sua cidade.

“Estudei negócios e administração na faculdade, mas não terminei, porque o conflito estalou. Há 5 anos, quando a revolução começou, eu estava a estudar e participei como um ativista político. Durante a revolução, filmava e publicava online. Então as forças do regime apanharam-me… [ligação vai abaixo]”.

Ibrahim descreveu-me, detalhadamente, como foi preso e torturado durante 54 dias. Como colocaram 40 pessoas numa sala minúscula em que, por turnos, só podiam estar sentados ou de pé. Como ouviu os seus colegas a serem torturados numa sala em frente à sua cela. Isto por entre o cheiro putrefacto de fezes e urina que se acumulavam por todo o lado.

Quando chegou a sua vez, aguentou durante 12 horas, içado, enquanto recebia golpes e bastonadas. Resistiu aos espasmos nos músculos provocados pelos eléctrodos, um em cada pé. Às feridas reabertas pela força de cada novo golpe.

“Mas nada disto é comparável a Damasco. Ser torturado em Damasco fez-me esquecer por completo tudo o que aconteceu em Idlib”.

Levado para o centro de inteligência militar das forças sírias na capital, Ibrahim foi mantido de pé, em roupa interior, sem se poder mover, comer ou beber, durante três dias. Quando queria ir a casa de banho, via-se obrigado a fazê-lo ali, de pé, sem se mover.

Imundo, era-lhe atirada água gelada ao corpo enquanto ligavam um ar condicionado na máxima potência, em pleno mês outubro.

O calor da primavera árabe há muito que já lá ía. Este era o inverno do regime sírio.

Resistiu à dor de sentir as unhas serem-lhe arrancadas para evitar que adormecesse. Ao seu lado, viu um jovem de 14 anos da sua cidade passar pelo mesmo. E ao final do terceiro dia, gelado, com o corpo vermelhos e dorido, com fome e e sede, sucumbiu. Perdeu a memória.

Ouvi, sem falar, a descrição destes momentos. E no final, acabei por perguntar:

“But Why?”. Porquê? Seria Ibrahim assim tão importante para a oposição? Saberia ele de alguma coisa? A que crime corresponderia pena tão pesada?

“They wanted to send a message”. Eles queriam passar uma mensagem.

A todos os que, como ele, usaram a rede como forma de propagar a mensagem de que uma Síria livre estaria para nascer. Àqueles que olhavam com esperança para as manifestações da rua, aos que esperavam um rumo diferente para tudo aquilo.

Torturado por relatar o curso da história. Eis como os regimes se perpetuam.

Uma nova luz para Idlib

Seria de esperar que Ibrahim, libertado numa troca de reféns, fugisse para nunca mais voltar.

Mas não.
Depois de pôr a sua família a salvo voltou a Idlib, tomada pelos rebeldes, para ajudar os que ficaram. Juntou outros jovens e formaram a União de Jovens de Idlib. Ainda não podem usar o nome. Os rebeldes não querem. Numa cidade em estado de anarquia, querem-nos constituídos como “organização oficial” antes de começarem a agir.

“Temem que os jovens de Idlib ganhem demasiado protagonismo?”, procurei concluir eu. Ibrahim reconheceu que “talvez fosse isso”.

Perguntei-lhe pela natureza destes rebeldes. Quem são e o que querem? Não vi, mas acho que senti um encolher de ombros, enquanto me explicava que os rebeldes, na realidade, são muita coisa junta. São grupos filiados na Al-Qaeda misturados com grupos que querem uma Síria democrática. Ibrahim jura que, se a primavera árabe tivesse derrubado Assad e se as forças armadas sírias não tivessem agido tão violentamente, a revolução não tinha tomado um ímpeto armado. “A radicalização dá-se em oposição a um governo radical”, responde-me.

Não estou tão certo disso como ele. As primaveras árabes parecem hoje uma miragem de uma coisa que nunca foi. Foram movimentos de regeneração democrática que acabaram em guerras civis, sistemas autocráticos, ditaduras a quem as democracias ocidentais fecham os olhos.

“Quando voltas para Idlib?”, atirei então.

“Esta semana. Há muito que fazer por lá. Por agora ainda estamos a coordenar-nos internamente. Mas queremos acabar de organizar o trânsito da cidade e começar a limpar as paredes dos graffiti com palavras feias que estão por todo lado. E como a cidade está completamente às escuras, queremos voltar a dar-lhe luz. Isto se os bombardeamentos pararem”, respondeu já quase no final da conversa.

"Todas as histórias começam pela busca de um herói", dizia eu quando comecei a contar esta. Como, e ao contrário do que nos fazem crer, não há qualquer ato de heroísmo numa guerra, esta seria então uma história sem herói.

Mas num país onde, segundo o New York Times, 83% das luzes das imagens de satélite desapareceram, não deixa de soar a uma grande metáfora para o que pode ser a União de Jovens de Idlid.

Um grupo de jovens que luta para dar um pouco mais de luz a uma cidade desconcertada. E à Síria. E ao mundo.

Mesmo que, no fundo, seja para se consertar a si mesmo.