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Se Alegre avançasse para a formação de um partido, Portugal passaria a ter quatro partidos de esquerda e dois de direita representados na Assembleia da República. Olhando mais de perto, porém, constataríamos a coexistência de um partido anti-capitalista e cinco agremiações que defenderiam a adopção da economia de mercado, mas a cujo funcionamento imporiam mais ou menos entraves - o que se deveria à sua maior ou menor desconfiança face à lógica da escolha racional dos consumidores e do ajustamento automático dos vários motores da economia.
Temos, certamente, várias esquerdas e diversas lógicas de organização política a elas atreladas. Mas em todas podemos encontrar o ideário marxista de que são os trabalhadores por conta de outrém a parte mais fraca do relacionamento profissional. No meu entender, essa interpretação fez e continua a fazer sentido em Portugal. Mas nem por isso a defendo. Ela encontra-se profundamente ligada à instauração e ao progresso das sociais-democracias saídas da Segunda Guerra Mundial. Nesse período, o forte desemprego e a necessidade de reconstrução da máquina estatal de cada Nação coincidiram, resultando na adopção de políticas de incentivo ao consumo particular e no aumento de profissionais de serviços administrativos públicos.
Se é verdade que a social-democracia, com o que de protector trouxe às sociedades, foi fulcral para uma normalização económica pouco atribulada, não é menos verdade que a liberalização entretanto implementada foi o propulsor do fantástico desenvolvimento económico conseguido. A abertura dos mercados e o esvaziamento da função interventiva do Estado tiveram resultados que converteram muitos dos mais ortodoxos do anti-capitalismo. Não todos, como ainda constatamos.
O sucesso da economia de mercado tornou-se imune a tentativas infundadas de contra-argumentação e, aos poucos, reconfigurou o mundo globalizando a economia. Hoje são os mercados mais flexíveis que vencem, que atraem mais investimento estrangeiro e abrem portas à criatividade nacional. Com este modelo económico, os "trabalhadores" (no sentido reduccionista dos comunistas, que apenas designam os empregados) perdem os "empregos para a vida" mas engrandecem-se, melhoram-se por via das circunstâncias, potenciam-se profissionalmente como nunca até hoje. Havendo competição no mercado, os trabalhadores têm maior poder de decisão, sabem melhor o que querem e encaminham-se para os cargos que melhor os servem.
Como escrevi acima, a ideia de que os trabalhadores são a parte fraca ajusta-se à economia portuguesa, que coloca vários limites ao investimento privado, mas perde cada vez mais sentido num mundo que já se rendeu à evidência de que dos modelos económicos para já criados é o capitalista o que melhor serve os interesses dos cidadãos. É, também, o que mais contribui para o sentimento de inclusão democrático; mas parece não ser (como atestam os múltiplos planos de intervenção financeira estatal - dos que saíram muito ao lado aos que acertaram em parte do alvo, mas todos deixando a factura às próximas gerações) o que mais favorece os políticos, porque esvazia a sua actividade em favor da económica.
Voltando a Portugal, recordo a "bela" herança de 1975: a imposição dos comunistas de que, para abandonarem a "luta", o sistema político português apenas poderia incluir partidos socializantes. Assim aconteceu, e assim permanecemos, mais de 30 anos depois: do CDS ao Bloco, passando pelo PSD e pelo PS (aqui excluo o PCP, pela sua especificidade), todos são adeptos do Estado Providência, a entidade abstracta que engole mais de metade da população, atribui-lhe vários tipos de "direitos adquiridos" e distribui a conta por todo o país, penalizando o que se situam fora dessa esfera - empregadores e empregados do sector privado, cuja capacidade de iniciativa é coarctada pela omnipresença estatal.
Não deve admirar, portanto, a cosmética partidária actual: elementos do PS que podem aderir ao BE, um CDS-PP com a porta do táxi aberta tanto ao PS como ao PSD, um PSD que é o principal opositor do partido com que poderá formar um Bloco de governação... Essencialmente mudam as interpretações sobre questões sociais (pós-materialismos e outros aspectos acessórios), que pouco pesam no fulcro cuja interpretação separa o eleitorado. Esse fulcro é, sobretudo nestes tempos de "destruição criativa" (cf Joseph Schumpeter) do capitalismo, a economia.
Considero que Portugal pode estar perto de uma perigosa inclinação à esquerda, chamando à decisão políticos que defendem ainda mais restrições à economia capitalista, o bicho-papão da esquerda sonhadora. Para tal desfecho contribuiria uma intensificação das perdas económicas da classe média - a que sempre esteve por detrás das convulsões sociais, ao contrário do que advoga o marxismo-leninismo -, aliada à propaganda anti-"capitalismo selvagem" (que nunca tivemos) e à inexistência de uma outra alternativa. Tida em conta a iminente falência do Estado Providência português - o tal que nos leva com um sorriso de beneficiados do berço até à cova e que está a engordar até aos limites do bom senso -, terá de ser seriamente ponderada a instauração de uma alternativa política que sirva de contraponto à ascensão socialista e que coloque, de uma vez por todas, a dinamização e a abertura à iniciativa privada à frente da esgotada concha da ilusão colectiva.
21/12/2008
Rui Passos Rocha
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